Um conto
Dessa vez, uma ficção curta
Havia três rachaduras no teto que saíam do bocal, duas eram pequenas, não apresentariam nenhum tipo de perigo, mas a última era mais grossa e se estendia até o batente da janela. No meu quarto não há rachaduras, Eduardo jamais deixaria, era muito cuidadoso com a casa.
No bocal também não havia lâmpada, mas não fazia falta, o que Carlos chamava de quarto na verdade era seu apartamento inteiro: um colchão no chão, um ventilador em um canto, um armário pequeno e com a porta pendente, livros, muitos deles empilhados em toda parte. Um banheiro e uma cozinha improvisada com poucos utensílios no outro canto completavam toda sua mobília.
Olhei para o lado e ao me deparar com aquele par de olhos levemente puxados, como de um gato me encarando, fiz menção de cobrir minha nudez. Eu sempre me cobria depois do sexo com Eduardo ou ele começava a encontrar qualquer peculiaridade no meu corpo, coisas que precisavam ser consertadas, como as rachaduras. Ele era muito cuidadoso comigo.
Voltei a olhar para o teto, apesar das rachaduras, ele ainda estava sob nossas cabeças, então, e como em mais um ato de rebeldia, deixei que o vento frio produzido pelo ventilador ajudasse a secar o suor, fruto do esforço de fazer amor.
Fazer amor. Eu gostava do som que essas duas palavras juntas emitem e do significado delas. Às vezes me pegava repetindo sozinha, só pra ver o que eu sentia.
Ali tão entregue a mim mesma naquele colchão, meu pensamento sempre divagava. A intimidade é uma coisa engraçada, ela te dá algo que, desconfio que o amor sozinho não seja capaz: liberdade, a de ser, principalmente.
Todos os meses, eu ia sozinha a um Encontro Literário, porque Eduardo não era chegado a essas coisas, então ele arrumava outra coisa para fazer. Eu nunca faltava. Ali não havia os olhares de Eduardo, que pareciam continuar a me vigiar mesmo quando ele não estava em casa.
O grupo era pequeno, quando todos iam não chegava a dez pessoas. Nunca havia contado, mas Eduardo curiosamente sabia. Um dia ele foi conhecer o espaço, claro, ele disse que estava curioso para ver o lugar que eu fazia tanta questão de frequentar, apenas por cuidado. Eduardo era muito cuidadoso com a violência da cidade que estava crescendo.
Sentávamos em cadeiras de plástico que ficavam empilhadas em um canto sem uso durante todo o mês em uma sala emprestada da Igreja, até o dia do nosso encontro, o que pedia uma pequena limpeza antes que pudéssemos começar. Assim que eu saía de casa, corria, para chegar lá e poder ajudar a arrumar o círculo.
Carlos sempre chegava cedo, ele que tivera a iniciativa, e apesar de não haver um líder ou alguém que comandasse, ele se sentia meio que na obrigação de deixar tudo apresentável antes de qualquer pessoa chegar.
Pra mim que acredito em sorte, aquela tarde Eduardo havia saído de casa antes de mim para ver jogo com os amigos e depois passaria no encontro para me pegar, como de costume. Então cheguei bem mais cedo, mais cedo inclusive que o próprio Carlos.
— Joice, desculpa! Está aqui há muito tempo? — Levei o maior susto, mais talvez por ele saber meu nome do que por ele ter chegado meio que correndo quando ele virou a esquina com passos apressados e o suor escorrendo pela testa.
— Ah! Não, estava liberada mais cedo e pensei em vir e ajudar com as cadeiras, na verdade eu acabei de chegar.
— Ótimo! Vou abrir pra gente entrar e pra minha sorte, sua ajuda veio em um dia perfeito, eu acabei me atrasando.
— Esposa?
Não tinha aliança, mas Eduardo me dizia que havia casais que não usavam, talvez casais que não queriam que outras pessoas soubessem seu estado civil. Nós só começamos a usar, porque eu comprei um par e insisti, muito.
Carlos demorou para entender a pergunta e primeiro olhou para a minha aliança, antes de fazer a ligação.
— Ah não! Trabalho mesmo, sabe como é, às vezes a gente se distrai e não vê o tempo passar.
— Deve ser importante para estar trabalhando em um sábado.
Eduardo não trabalhava sábado, esse era o dia em que ele precisava de outros ares, como ele mesmo dizia. Do trabalho, da casa, de mim.
— Olha, todo trabalho é importante, imagine só, nessa imensidão de profissões, todas são necessárias de alguma maneira. É só lembrar a confusão que causa quando uma dessas categorias entra em greve. As coisas saem dos eixos.
Peguei no ar o pano que Carlos jogou pra mim e fui até a pia lavar, não antes de admirar ele um pouco, tinha um sorriso lindo, tímido, enigmático. Era tão diferente do de Eduardo que era extremamente cuidadoso em como tratava as outras pessoas. Mesmo que eu me incomodasse com seu excesso de cordialidade, ele dizia que era importante, ainda mais por causa da sua profissão, precisava ser cordial na medida. O escritório de advocacia estava crescendo e até clientes das cidades vizinhas estavam começando a procurá-los, graças a ele, claro.
Senti o rosto corar e me virei para a primeira cadeira.
— E se você e seus colegas entrassem em greve, o que iria acontecer?
— Bem, pra começar talvez algumas pessoas deixariam de dar algumas boas risadas logo de manhã, outras poderiam deixar de refletir sobre assuntos importantes e a população não ia ter ideia do que poderia estar acontecendo na cidade, além de que, com o cancelamento das assinaturas e menos gente comprando jornal, muita gente seria demitida.
Então era verdade, ele era o escritor misterioso que escrevia crônicas que, algumas vezes, nos divertiam, outras quase nos faziam chorar. Ele tinha um jeito único de ver a vida e encarar os acontecimentos na cidade. Era engraçado, irônico e sarcástico na medida.
Sim, eu lia o jornal, todos os dias. Tinha tempo de sobra pra isso, não trabalhava fora, Eduardo me dizia que era bobagem, ele podia muito bem dar conta das despesas sozinho.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, os primeiros participantes começaram a chegar, e na frente, de todo modo, era melhor mesmo parar com aquele papo.
Eu podia estar fazendo confusão, mas sentia o olhar de Carlos pra mim mais vezes do que de costume enquanto falava e até enquanto ouvia. Daria tudo para saber o que ele estaria pensando, será que estaria imaginando uma vida pra mim lá fora? Uma vida interessante como a dele?
Enquanto Matilda compartilhava suas impressões da nossa última leitura, um som alto e estridente começou a tocar. Demorou um pouco pra todo mundo entender que era o toque de um celular, respeitávamos muito a regra de deixá-los no silencioso. E talvez eu tenha demorado ainda mais para perceber que era o meu que estava tocando.
Entre o papo com Carlos e a limpeza das cadeiras eu tinha me esquecido completamente de colocá-lo no silencioso e de levar comigo para a roda. Levantei rapidamente e o peguei na pia da cozinha e como não conseguia desligar, saí para tentar fazer alguma coisa que diminuísse o barulho, mas foi em vão depois de ler a mensagem que Eduardo queria mandar para uma tal Amanda confirmando o encontro e se desculpando antecipadamente pelo possível atraso, pois ia pegar um vinho especial e uma tábua de frios para celebrarem.
Eduardo sempre foi muito cuidadoso com datas especiais.
Ao notar o engano da destinatária, devia estar querendo me convencer de que não era nada daquilo que eu pensava. Apenas deixei tocar até cair na caixa as três vezes em que ele ligou. Apaguei a mensagem para a tal Amanda e voltei para o salão.
Com o passar dos meses, Eduardo se atrasava cada vez mais, e Carlos não me deixava sozinha na calçada, mas não era por cuidado, era porque minha companhia, nas palavras dele, lhe fazia muito bem. Um dia, estava determinada a descobrir se ele era o escritor das crônicas que lia e, sem olhar pra ele, me referi a um trecho da última edição. Carlos respondeu com naturalidade, não como alguém que é pego de surpresa, mas como alguém que conscientemente sabe o que a outra pessoa está fazendo.
Eu não precisava daquela prova, eu já sabia da Amanda. Assim como sabia da Flávia, da Marina, da Patrícia. Sabia das viagens a trabalho que ele faria, mas que durariam um pouco mais do que o comum, por algum imprevisto. Sabia das festas da empresa em que ele me diria que não poderia levar acompanhante. Sabia até mesmo que ele iria prometer a ela que iria se separar assim que firmasse mais o nome dele e assim poderia desfazer a sociedade com o meu pai. Bom, eu também não tinha pressa.
Foi a mão de Carlos no meu ventre que me trouxe de volta. Os dedos dele subiam pela minha barriga num caminho tortuoso até os seios. Beijou cada um deles, e também minha boca, antes de se levantar para pegar água pra nós.
— Está calada hoje, o que houve? — Bebeu toda a água dele, em um gole e voltou a se deitar comigo.
— Nada demais, só lembrando de algumas coisas. — Já eu, bebia mais devagar.
— Qual delas? O encontro acontece há meses…
— Aquela, a primeira vez que saímos juntos. — Disse sem olhar pra ele.
— Eu jamais esqueceria, mas por que isso agora?
— Não sei, acho que por causa do livro deste mês! As coisas quase nunca são como parecem ser, esses têm se tornado meus livros favoritos, os finais inesperados…
Foi a vez dele ficar calado. Eu sabia o que ele estava pensando. Já há alguns encontros ele dizia sentir saudade e me cobrava mais presença do que o tempo em que meu marido usava para estar com a amante, sair com os amigos ou ainda quando a discussão do clube de leitura terminava um pouco mais cedo.
— Eu não posso te dar o que está pensando agora, você sabe, mas talvez possa dar uma coisa que me pede há muito tempo.
Ele sorriu instantaneamente. Levantou faceiro e pegou a câmera fotográfica já ajeitando no ponto de disparo automático.
— Vamos vestir as roupas? — Perguntou ele sem esperança alguma que eu aceitaria posar pra ele dessa vez.
— Não! Vamos ficar assim mesmo e por favor, nada de edições.
Minha fala acabou arrancando uma risada gostosa de Carlos, já que odiava equipamentos digitais e continuava a fotografar com sua boa e velha analógica.
— Jamais editaria uma foto sua, você sabe! Você é maravilhosa, do jeitinho que é — Respondeu ainda gargalhando.
Sorrimos e trocamos mais alguns beijos. Olhei para o relógio. Carlos pediu para que eu ficasse mais, mas não dava tempo, eu precisava tomar banho e voltar para o salão do encontro, que daquela vez tinha sido cancelado, para esperar Eduardo.
Eduardo era cuidadoso, mas talvez eu fosse mais.
Meia hora depois, eu estava o esperando na calçada, vestida com meu modelito midi, o livro do mês e minha bolsa na mão. Ainda demorou um pouco para Eduardo virar a esquina e parar o carro na minha frente. Imaginei que também poderia estar com dificuldade de se despedir da Amanda.
Entrei no banco do carona.
— Oi amor! Como foi o jogo? — Minha voz recuperara o seu tom usualmente suave que Eduardo sempre me chamava a atenção para ter.
— Foi ótimo! — Notei quando ele levantou a gola da camisa para esconder um roxo, com os olhos fixos à frente, as duas mãos fixas no volante, como sempre, muito cuidadoso com o trânsito. — E o encontro desse mês?
— Ah, quer saber? Pra mim foi um dos melhores. — Respondi enquanto abotoava o primeiro botão do vestido que, pela primeira vez, na pressa, eu também tinha esquecido.
Em tempo…
Esse conto saiu de um caderno antigo. Eu já tinha pensado em retrabalhá-lo várias vezes e adiei sempre, talvez para esperar o momento certo. Mas foi um curso de criação literária que fiz recentemente que acabou me estimulando a tirá-lo da gaveta. Está aqui agora porque venho falando há muitas edições sobre escrita, sobre o que ela pode fazer com a gente, e me parecia injusto não mostrar também o resultado. A escrita diária não é só registro. Às vezes, ela vira história.
Até a próxima,
Bárbara


